20.3.11

Nostalgie



E eu saio de casa e ando pela rua com medo da velocidade dos carros do trânsito da pressa do fim do mundo da radiação da solidão do passado do futuro.

E eu saio de casa pensando nos sonhos que um dia larguei porque não podia porque não tinha tempo porque não tinham mais razão de ser porque eu precisava cuidar de outras pessoas com outros sonhos e outras vidas.

E eu saio de casa pensando que tive que adiar sonhos que hoje não cabem mais na vida que levo, não cabem mais em mim.

Não redigi o tratado, não viajei de navio, não li aqueles livros todos da estante, não fiz um curso de inglês, nem sei se um dia terei tempo para, e se e quando tiver retomarei o que ficou pra trás, se inventarei algo para a frente ou se será tarde, muito tarde, e estarei cansada, ou desanimada, ou desinteressada, caso viva esteja.

E eu saio de casa achando a cidade assustadora e feia, a cidade feroz e veloz, asfaltada demais, quente demais, mudada demais e não encontro nela os quintais da infância, pelas calçadas os pitbulls aterradores puxados por seus pitdonos ainda mais aterradores, gentes apressadas, prostitutas na rua dos fundos do supermercado às 17 badaladas do dia, buzinas, refletores, janelas vãs.

E eu saio de casa e sinto uma imensa desesperança porque uma infinda saudade de tudo o que foi, de todos os que foram, do que ficou.

Do que fui, do que sonhei.

E mesmo da casa, de onde saio eu.

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Foto de Manu Neto: Natal

27.2.11

sábados, versos, purpurina



Tu pisavas nos astros. Sem ver teu vigia.

O dia começa mais cedo, antes do sol.
Lembro dos versos mais belos de duas canções e sinto saudade do manifesto comunista. Marx e Engels escreveriam hoje: "internautas de todos os países, uni-vos!"?

Reli as cartas do passado para reafirmar meu alívio por fazerem parte do passado. C me pergunta: "você assim não fica trazendo o passado para o presente?" "Deixa ele lá atrás". Respondo que não, quase convicta.

O rapaz do futuro, nascido sob o signo do coelho no horóscopo chinês, desapareceu sem deixar pistas. Se era gay e morreu, devo encontrá-lo no carnaval, pelo ar, transformado em purpurina.

Falando em carnaval, já ouço os atabaques dos ensaios. No último, houve reunião informal do BBLC ZC - Bloco de Bruxas e Lobisomens da Confraria Zé das Couves, associação apócrifa sem fins terapêuticos ou lucrativos, de membros inquietos, como que buscando algo, alguém, elos perdidos, encontrados. Sinais de vida. Ou de morte.

Penso em viajar e tomar um banho de imersão nas águas do Atlântico e Pixel do Além-mar me diz que virá em maio, em visita.
Não estou interessada. Depressivo, ele. Sem paciência, eu.

Ontem, finalmente, a madeira chegou à construção. Faltavam as portas, que já foram instaladas. Com fechaduras. E chaves. Tris. Tetras. Segurança máxima.

Amanhece e os pássaros começam a cantar. Fico entre ir dormir mais um pouco e despertar de vez, pendendo para a primeira opção.

Ontem sonhei com cães. Dois. Um manso, um feroz. Este, confiável, o primeiro, não.
Talvez sonhe com borboletas agora. Transformação.
Pássaros. Liberdade. Nada. Repouso.
Só vendo. Sonhando.

Quanto aos versos, apenas palavras. Vulneráveis ao engano viscoso das línguas, à peçonha das bocas.
Como o avião, às guerras - e Santos Dumont saiu da vida.

Não lamento pelas próximas vítimas dos versos profanados.
O que não mata...

Nenhuma viagem ao alcance do olhar.
Nenhuma festa de páscoa: nem ovos nem coelhos.
Só o Atlântico. Sem Norte, nem OTAN.

Aos sábados, quase tudo pode acontecer. Mais ainda se é carnaval.

O mesmo com os domingos.
O que pode ser bom.
Muito bom.

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"Tu pisavas nos astros, distraída..."
(Orestes Barbosa: Chão de estrelas)
"Tropeçavas nos astros, desastrada, [...] e a cidade não tinha livraria"
(Caetano Veloso: Livros)
"Passas sem ver teu vigia"
(Chico Buarque: Vitrines)
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23.2.11

busca e apreensão



Ontem foi dia de romaria. Pela cidade, procurando bandeiras. Banderas. Fui ao italiano, ao português, ao recifense. Restaurante, botequim, chopperia. Não nessa ordem. Não nessa cronologia. Fui aos possíveis lugares onde não foi possível encontrá-lo.

Ontem ele não quis tomar vinho em companhia da moça que poderia ser sua filha - mas não era. Nem cerveja sozinho. Nem chopp com amigos. Onde fincou sua flâmula? - me perguntava. Em resposta, as buzinas do engarrafamento na avenida transversa travestida de Champs-Élysées nordestina.

Ontem eu não quis ou não consegui trabalhar, estonteada com as coisas que não davam certo ligeiro, que paciência está em falta e sem previssão de remessa.

Meu coração claudicante esboçou alguns passos em direção ao astro - vagabundo, luminoso -, tropeçou e caiu, mas amparei-o, estreitei-o no peito, comprimi-o, anestesiei-o.

Sem forças para andar até o rio, deitei e li histórias de detetives. Memorizei suas técnicas. Dei tratos à bola. Perdi o sono e o encontrei de novo, na madrugada. Não consegui descobrir as pistas do desaparecido.

Pensei em fazer como a moça que só perguntava, repetidamente: onde andas? onde andas, menino?

A bem das línguas, preferi perguntar mentalmente: aonde vais? quo vadis?

Ontem decidi continuar a peregrinação e não sossegar até encontrá-lo. Apenas para saber se seu olhar ainda é o mesmo. Se cortou os cabelos compridos, os cachinhos caídos no chão.

Então acordei.

Já tarde da manhã enfrento as ruas. Pisaré las calles nuevamente. Nem é carnaval mas não demora. Estará pelas vitrines, estará no alfaiate, na costureira, tirando as medidas para suas vestes de Arlequim.

E o tempo de palhaço já passou.


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imagem aqui

3.2.11

Purificação



Você perfuma a casa com cravo, canela, essência de hibiscos, de rosas. Varre o chão. Manda embora poeiras antigas, cata o lixo, põe fora.
Um copo de água e sal grosso para filtrar o ambiente. Incenso.
Você promove, na casa, uma limpeza espiritual. Passa de meia-noite e o sono já vem. Você havia posto sobre o sofá vermelho empoeirado, depois de remover a poeira, uma manta colorida - quadrados amarelos, alaranjados, azuis.
Você dorme na rede, o chão varrido, o ar purificado, a casa limpa. E esqueceu de tomar banho.
Amanhece e você não sonhou e não desligou a tv e não percebeu.
Amanhece e doem os seus ossos das costas e você não sente mais angústia, mas também não sente alegria.
O gato não voltou, o telefone não tocou, nada - até onde sabe - aconteceu.
Passou o dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, dia de Iemanjá, e você não foi dançar a ciranda e tomar o vinho e encontrar as consulentes e amigas da cartomante no ritual.
Entrou fevereiro e você não se mudou, e você não mudou, e você continua procurando alguma coisa que não sabe ao certo o que é e talvez nem saiba se ainda procura.
Findou janeiro, que foi alegre, Saturno deixou de transitar na sua casa do amor, serás feliz de novo - disseram os astros e lâminas e oráculos - e a felicidade deve ainda estar a caminho, é certo. O Quíron não veio, o moço não era aquele, os amigos o são, verdadeiramente?
Um amor foi abandonado, um livro foi largado, uma porção de tralhas inúteis jogadas fora.
Amanhece e você demora a sair, as pernas doloridas, as costas doloridas, a consciência do tempo passando, da idade avançando, da velhice se avizinhando, mas você só tem 40 e poucos e o peso do mundo sobre o pescoço.

Amanhece e a casa está limpa. E você, não.

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25.12.10

O pau d'arco II




Cortei as mãos ao recolher os cacos de vidro espalhados pelo chão da cozinha. Atirei uma pedra grande de granito no ratão que tentava se esconder atrás do arbusto, e ele não morreu-reu-reu.
Nem fui à polícia e saiu em disparada, capengando, como podia, até sumir de vista. Reprovaram meu ato selvagem - atentado contra a mais ínfima vida gera reclamações e pregações ali, entre eles.
Não dei ouvidos às lições alheias, só à própria maldade, mas o ratão foi no outro sonho, antes do das mãos cortadas e do mutante que rondava a casa até que a filha apavorada corresse a aferrolhar o portão advertindo que ele era mau. Muito mau.

Velouté sentiu o drama e miou miou miou no pé da porta para que a abrisse, e veio em minha guarda e deitou no sofá, sob a rede, e velou meu sono e os sonhos ruins não vieram mais, nem mesmo debaixo do calor e da sinfonia de mosquitos.

Linda loira me receitou um filme de um rato cozinheiro e assim entrei pela madrugada, cozinheira infante, desenhos coloridos, molhos e sopas, ruas e esgotos de Paris.

Ao amanhecer, saí a aguar as mudas nos vasos, que continuaram sem dar um pio, sequer para agradecer - à exceção do pau-d’arco que agitou suas oito novas folhas em saudação preguiçosa.

Aproveitando o que imaginei ser disposição dele pra entabular conversa, disparei:

_ Que seria das noites intermináveis sem a perspectiva da manhã?

Nada, nada me disse.

E mais não lhe foi perguntado.

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imagem daqui

21.11.10

O pau-d'arco





Aparei com uma lata a água da chuva e despejei no saquinho de terra com a muda de pau-d'arco. Água da chuva dos cajus. O gato brigando quebrou o arco, perto da raiz. Enterrei de novo, a ver se tem jeito. É que em frente de casa vai ter uma árvore dessas. Para florir em setembro.

Pau-d'arco é aqui. N'outros cantos dizem ipê. Esse é rosa. Ou foi - não descobri se ainda vive.

Ontem não consegui ver o filme até o fim. Achei enfadonho. Estava com sono. Era outra língua, não tinha legenda.

Minha vizinha acaba de sair, short curto, salto alto. Temi que se desequilibrasse e caísse por cima da outra muda, a de araçá. Que teimo que é pitanga. Temi pelos dois, posso até jurar.

Riu de mim, o rapaz, quando chamei de planta o projeto da casa. Não liguei. Estava feliz. Faz dias, assim, feliz.

Triste é ser roubado. Quando se tem apego ao que se vai, pior. Eu fui. O ladrão deu com os burros n'água. Saíram molhados, os burros. Mergulhei e catei tudo de volta. Depois foi só enxugar.

Lembrei que Antônio me prometeu 500 pés-de-algo. E que o jasmineiro, quando crescer, vai ser de verde-viço.

Velouté vai se mudar. Ele, a mulher, o filho e mais três enteados. Seis felinos.
O senhorio disse ter uma tia assim, que vive com uma porção de gatos. Não faz mal. Posso acrescentar cachorro, passarinho (solto), um crocodilo, talvez. Pra ser original.

O que me intriga mesmo é o Pau-d'arco. Não sei se morreu ou florirá.

A morte, às vezes, só se faz notar depois. Muito depois.

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5.11.10

Arcano XVIII




As ruas da cidade estando perigosas à noite, fechou janelas e portas - trancas, travas, cadeados - o fosso ao redor;

o retrato do viejo brujo na parede, unhas pontiagudas, dedos magros, indicador apontando a direção do inferno, olhos injetados, nariz adunco, o retrato do velho bruxo.

Acendeu a lenha para o fogão clamando labaredas, crepitar quebrando o silêncio, uns cães uivando à lua minguante de lá de fora;

o medo abafado sob o xale, a proteção da gaiola de ferro, o prisioneiro encerrado em grades, muros, os que ergueu em torno de si;

amarelas, as páginas do livro de feitiços sob a luz da lamparina.
E um lugar seguro.
Um lugar seguro.

Os olhos da salamandra, o rabo da salamandra e a noite. A noite, tão perigosa.

Além da porta, o imprevisível, oculto, desconhecido. Além da porta, um coração.

O dentro metia medo.

O calabouço.

Fora, aterradoras - mais que as ruas da cidade, a noite -, as ruas-artérias do coração.


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"Mexo e remexo e me perco e adormeço nas ruínas da cidade submersa
sonhando um mar que não conheço
como não conheço as ondas do meu coração"

(Cidade Submersa, Paulinho da Viola)

23.10.10

Sábado



Eu quis compor um samba mais cedo, pra festejar o sábado, a vida, o calor. Procurei pela casa as notas, os acordes debaixo da penteadeira; do toucador, a melodia. Procurei e não achei.
Não tive muito tempo, que a rua do mundo me chamou a trabalhar, então fui descendo a ladeira de terra esburacada, o sol doendo nos óculos de lentes antiUVA, pró-vinho, vendo os mascates nas bicicletas carregadas de bichos de pelúcia gigantes, espelhinhos redondos, flâmulas de times de futebol, panelas de pressão, colchas de veludo, caminhos de mesa, cofrinhos de porco, pinguins de gesso. Parei no caldo de cana e bebi água gelada demais, a garganta ressequida da poeira do calor da soleira do verão apressado do outubro sem fim.

Tinha fome, muita fome, nada além de duas laranjas e cinco moedas, que somei, aproveitando o transtorno, arranjando um sete que justificasse o esforço, a crença, a cabala, o arcano, a bobagem da vez - a água ocupando o espaço da comida, meio litro de estômago preenchido com goles largos e ávidos, nenhuma pausa, respiração, palavra, som, um corpo sem barulho, sem ruídos, um corpo silente ao meio-dia.

Frente à ponte para atravessar, o rio acordava, preguiçoso, cara suja da noite nua, pernas abertas à preamar, órfão de náufragos, garrafas flutuantes, nenhuma mensagem, mapa, bilhete, sinal, tesouro, prelúdio. Silente, o rio, também.

Trocamos olhares desconfiados, rápidos, sem saudação ou festejo, até que chegasse do lado de lá, onde me esperava a carroça - dois cavalos, nenhum cocheiro, um rapazola, camisa rasgada, calção esfiapado, sujas as mãos. Passou-me as rédeas, procurou o embrulho enquanto, não sorriu quando me fui, encomenda no braço, óculos embaçados, aceno ligeiro e só.

Quando voltei, já a tarde descia seus vermelhos sobre o rio, as dores migravam ao longo da coluna, as garças catavam carrapatos pelos lombos dos bois da margem de lá.

Quando cheguei, o sábado se ia, sem festa ou café ou cachaça ou conversa qualquer.

Deitei sobre o toucador o pacote, embrulho, encomenda, que não abri, como não abri os botões da farda, as janelas da sala, os ouvidos ao vento, aos sons da rua.

Deitei sobre o tapete um corpo ausente, pesado, dorido, olhos parados no teto, pensamentos e imagens fervilhando recitais.
E assim ficou, o corpo, até chegar o sono, até morrer o infeliz violino da morena tosca no bar do lado, até, enfim, sem noite, sem samba, até, enfim, o sábado acabar.

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28.9.10

Terça-feira



Amanhecer sozinho é bom. Ninguém ao lado pra resmungar. Pra atrasar o banho. Pra conversar demais. O tempo elástico para o café silencioso, os óleos e cremes, ler as cartas e os jornais e partir para a rua do mundo.
Amanhecer sozinho pode ser triste. Pode ser chato. Pode ser terrível.
Hoje é bom.
Nuvens no céu, prenúncio de chuva no fim de setembro, temperaturas enlouquecidas, aquecimento global, estações em atraso, adiantadas.
Ontem à noite foi difícil dormir. Pensei no meu derradeiro engano antes do próximo acerto ou novo engano. Rememorei sem pesar - que sem bola de cristal ou dons de clarividência, a vida é mesmo assim.
Amanhã não vou à lotérica receber o prêmio de 61 milhões que não ganhei. Não vou comprar um navio nem um apartamento em Paris. Não vou fazer caridade no sertão nordestino ou no continente africano. Não vou à praia.
Hoje é bom. Amanhã não sei.
Se chover. Se jogar na loto. Se acordar em companhia. Só então vou saber como será.
Que há muito se quebrou minha bola de cristal.


26.8.10

Solidões

Ramos, palha, gravetos, nada restou do ninho. A ave não tinha para onde voltar. Muitas não tem mais para onde voltar.
Silêncio, escuro, sala, noite, solidão, e se sentia assim. Ave que quer voltar ao ninho. Mas ninho não há mais. Drumondianas - na lembrança.
De repente - não muito - enjôo de samba, refeição primeira em tempos recentes.
Sem querer samba e sem haver ninho, urgia acender a luz. Pra ver direito se usaria ou não maquiagem, sombra, rímel, lápis, delineador, batom, pó compacto, pra descobrir como se mostrava, a solidão.
Não a coisa boa do estar só, do querer estar só, mas um bicho mínimo roendo a alma até o buraco nela ficar do tamanho do oco do mundo.
Aquele bicho, do tamanho que fosse, carecia de se ver à luz.

Quando você toma coragem e tira o rosto de por sob o lençol, malgrado a assombração ali do lado, e olha pra ela, como perde força a assombração!

Pois assim foi. Uma puxada de lençol, uma luz se acendendo e um olhar decidido:
o diabo nunca foi, de fato, tão feio quanto se diz. Nem ela.

Tinha uma manivela plantada no meio das costas e a deixava girar.

E aí a manivela girou. E o tempo voltou. E as prateleiras coloridas. E o periquito empalhado. E o batente do balcão de azulejos.
E os vidros das janelas, o abacateiro, o prego o sangue a sandália furada da queda da cirigueleira, e e e e e ...

E era noite e frio e escuro e solidão.

E de repente, umas dores e umas mágoas e um tédio e um cansaço de viver não estavam mais.

E de repente, foram caindo no oco, tamanho do oco do mundo, telas, muitas, notas musicais, cheiros de jasmim, sabores, mel e rapadura.

E o oco foi ficando cheio.

E o bicho não era tão feio - amores vãos, dores ancestrais.

E aquele cheio - drumondianas - já ninguém lhe tirava mais.

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Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


(José; Ausência - Carlos D. de Andrade)

2.8.10

Para o frio




Há muito não falava em sonhos. Apenas andava. Retas. Curvas. Circulos, que voltavam ao ponto primeiro. Acabando onde começava, serpente autofágica, boca no rabo, rabo na boca. Ou anéis, como as cascavéis. Ouroboros. Sem alquimias e pedras filosofais.

Dois séculos antes, o frio não lhe atingia a cintura, enredada em melenas espessas, longas, dourado-cinza, cinza incomum.
Agora entrava pelos pés, percorria a medula, abraçava o pescoço, descia as costelas, espetava o coração. Inútil, o cachecol. Cache-coeur.

Foi durante o frio, o sonho.

O vento voltara. A lua enchera. A cigana regressara.
Pela janela aberta, o morcego não volteou mais a sala. Só o viu já no quarto, em fuga, rasante sob o colchão, a felina no encalço, pega-não-pega, escorraçado, até o portão da frente. Até desaparecer.

Dormiu logo depois. E teve medo. E gritou. E ninguém ouviu. E tentou sentar na cama. O corpo desobediente, oscilava, caía, caía, e gritava mais e mais. Deu-se conta que dormia. Rezou pra Nossa Senhora de Lourdes. Abriu os olhos. Foi despertando devagar, a vista se acostumando às sombras, à escuridão. Silhuetas, raios de luz. Uma asa voando longe. Um gato na janela.

A ameaça. A sentinela. O pavor. O alívio.

No último dia do mês.

Depois de dois séculos, os cabelos se aproximavam novamente da cintura. Os fios cor de cobre. A blusa vermelha, mangas longas, os olhos cansados, os pés cansados, que há muito andava, e só andava. A voz contida, o grito preso.
Daí ter querido falar em sonhos. Quaisquer.

Cortou o silêncio o apito da chaleira.
Contra o frio, o chá quente. O cachecol. Cache-coeur. O gato na janela.
Gatos no telhado.
Contra o frio, a voz liberta.
A lareira acesa.
E o fogo.
E o fogo.

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"Línguas rubras dos amantes
sonhos sempre incadescentes
recomeçam desde instantes
que os julgamos mais ausentes
A recomeçar, recomeçar como as canções e epidemias
a recomeçar como a colheita, como a lua e a covardia
a recomeçar como a paixão
..."
(Caça à raposa; João Bosco - Aldir Blanc)

26.5.10

Visita

Não havia muito o que fazer por ela, que corria a casa enlouquecida, cavando prateleiras, invadindo armários, puxando portas.

Tinha fome, todas as fomes, de líquido, de sólidos, de fluidos. Fome no estômago, fome no sexo.
Subia pelas paredes, literalmente, colando no vidro da janela o focinho. E ninguém, fora a senhora compadecida, reparava na aflição em seus grandes olhos de folha de grama.
Por ela, aplacou a agonia do estômago.

Isso ontem.

Desapareceu entre os arbustos.
Ixóreas despetaladas, grilos silentes, flores no chão, bichos-de-pé, teto pontilhado de luzes distantes.

Hoje voltou com a manhã.

Atrás, um séquito:
- um loiro, um negro, um mourisco.

Um alarido infeliz, protestos bocejantes, amuados, dos recém-despertos moradores. Indiferentes, os pretendentes.

Pensei que ficaria. Ofereci comida. Cama. Abrigo.
Foi-se como veio. Como um raio.
São assim, os gatos. São da noite. Das ruas. Dos telhados.
Cedo ou tarde o apelo da caça ou do sexo os leva embora.
Bom não ter havido o tempo para a afeição sair da semente.
Que é uma coisa estranha, mesmo, o amor.

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"Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse há mais tempo
Não amava quem amei
"

24.4.10

A folha do livro

Bonança chegada, céu de abril azulou.
Nuvens e pesares passados, perdi os óculos, de mais graus que o necessário, sem lamentar. Ajustadas as lentes dos novos, aquilo que eu olhava retomou sua real dimensão.
E a resposta? Ah, a resposta... Primordial era a pergunta, não a resposta.
A dama das letras aconselhava, sempre: - faça a pergunta certa! Pois foram tantos anos fazendo a pergunta errada que a resposta nem veio, nem sequer existia.
Descobri foi que havia o sim porque sim. E desisti da explicação deste - que prescinde de delongas, de teses e tratados - para ir atrás dos sins que tem porquês.
Houve quem quisesse responder, à toa, sem saber. Nada convincente.
Folheando um livro, achei a pergunta. E a resposta. Não nas páginas, mas entre elas, numa folha de castanheiro que ali guardei um dia, há muito tempo. Tudo então pareceu tão óbvio e fácil e claro, que só mesmo tendo olhado por lentes erradas para passar tanto tempo sem ver.

Depois que clareou, decidi prestar mais atenção nos alimentos. Adotei dieta variada:
- legumes, para restar tenra, coração terno;
- fibras, para o estômago, para os intestinos. Para digerir o mundo;
- grãos, para o fortalecimento. Um quê de dureza;
- e brotos. Para despertar o novo, o olhar primeiro, nu, sobre as coisas bonitas da vida (ainda as há - te asseguro!).
Não esqueci os cajus da sobremesa. Cajus de cajueiro de duna, de areia, daquele que tira de onde parece não ter, de solo pobre, a vida. E a devolve em ferro e sumo, em doce e ranço. Separei o ranço e o doce e assimilei do sumo o ferro, para o sangue. Glóbulos vermelhos. Ânimo novo.

Enquanto leio, escrevo, me alimento, você sonha em uma cidade de além-mares. Com uma cidade com nome de Luz.
Vê? Luz. Vejo.

Enquanto encontro perguntas e respostas, peço notícias da sua primavera, outro hemisfério.

Que o céu azulou. Que finda abril. E voltaram as canções.


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"Não ter medo de nenhuma careta
Que pretende assustar
Encontrar o coração do planeta
E mandar parar
Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas
Fazer um minuto de paz
Um silêncio que ninguém esquece mais"

(A Página do Relâmpago Elétrico -
Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
.

12.4.10

Homo infimus




Madrugadinha, cheiro de café, portas e janelas abertas, pintas vermelhas pelos dedos das mãos, aceno em adeus às muriçocas saciadas.
Penso em passar primeiramente na botica, última tentativa antes de proclamar indeléveis as manchas na planta dos pés, que nenhum esfregão detergente sabão saponáceo alvejante conseguiu remover - conseqüências das menos nefastas da peregrinação, longa, no pântano.

(Direi à loirinha, a gordinha: dois dias depois me lembrei do nome - Thompson. Direi também o que desde o início suspeitava: não me trairia, a memória.)

Olhando as fotos de Roldão e Sebastien, agradeço a eles o retorno do sono, mesmo que leve e descontínuo. O discernimento – gracias, my self – volta despacito. Os anjos circundam o entorno, desconfiados mas intimamente satisfeitos com a debandada das almas sebosas.

Meus cabelos cresceram nesse meio tempo, o da peregrinação. Deixei-os em paz, ao abrigo de tesouras e Dalilas.
A salvo da areia movediça, voltei a acordar cedo, entoando o hino de adeus ao pântano, às armas, aos paraísos artificiais - sem culpas ou saudade.
O corpo agradeceu. A mens insana se refez.

Penso em anteontem. Na mesa farta em que comi e comi e comi, camarões, tapiocas, cevadas, leveduras, ubaias, catolés.
Estava assim, nutrida, serena, contemplativa, quando choveu.
Não disse dessa água não beberei e aparei na boca umas gotas da chuva antes que alcançasse o chão enterrando ossos esquecidos meio à mata.
Permiti que lavasse meus cabelos e alma e pés manchados. Esvaziei então o embornal e pisei, descalça, o solo molhado, chakra aberto à cura, que a terra muito sabe e a muito transforma: carne, ossos, esterco. E flor.



Agora, sorvo o café devagar, quase refeita.
Repenso a visita ao boticário e desisto: não venderá, é certo, frascos de tempo.
Desnecessário, também, o repelente: não voltarão, as muriçocas.
Nem os morcegos.
E nem mais vampiro algum.

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"[...]Fruto injustificável dentre os frutos,
Montão de estercorária argila preta,
Excrescência de terra singular.
Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito: — o de chorar!
"
(Homo Infimus; Augusto dos Anjos)

paisagem incidental: Urca do Tubarão

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4.4.10

Alimento



Três degraus acima, na prateleira da cozinha, o caldeirão de cobre, teias e poeira chega ao alcance da mão.
Para o cozido, não pedaços dos filhos, Medéia contemporânea. Não o convite para a ceia. Não o preparo amoroso do alimento, mãos à obra, mão na massa, mãos limpas, mão que afaga. Para o cozido, água. E pedras.
A sopa do monge. Alimento e partilha.

Um caldeirão de afetos. Souvenirs. Primaveras. Um caldeirão de sonhos. E vivências.

Pois, escolha os ingredientes a ajuntar. Você tem fome de quê?
Se a sopa é amarga, se o pão é bolorento, não tome dessa sopa, não coma desse pão.
Ao cálice de veneno, preferível a sede e a estrada, longa, que leva à fonte de água pura.
Às migalhas do caminho, preferível a fome e o medo de entrar na mata, a vereda até a árvore da vida e da morte, a subida aos galhos mais altos, o bom fruto.
Prepare sua refeição. Partilhe seu alimento. E escolha - muito bem - os convivas.
Mas só depois do silêncio. E do enfraquecimento. Da morte. Do renascimento. Quando já lhe parecer leve o caldeirão de cobre, três degraus acima, na prateleira da cozinha, ao alcance da mão. A que afaga. A que apedreja.

Para ajuntar à sopa de pedra água pura. E fruto bom.

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