Tinha fome, todas as fomes, de líquido, de sólidos, de fluidos. Fome no estômago, fome no sexo.
Subia pelas paredes, literalmente, colando no vidro da janela o focinho. E ninguém, fora a senhora compadecida, reparava na aflição em seus grandes olhos de folha de grama.
Por ela, aplacou a agonia do estômago.
Isso ontem.
Desapareceu entre os arbustos.
Ixóreas despetaladas, grilos silentes, flores no chão, bichos-de-pé, teto pontilhado de luzes distantes.
Hoje voltou com a manhã.
Atrás, um séquito:
- um loiro, um negro, um mourisco.
Um alarido infeliz, protestos bocejantes, amuados, dos recém-despertos moradores. Indiferentes, os pretendentes.
Pensei que ficaria. Ofereci comida. Cama. Abrigo.
Foi-se como veio. Como um raio.
São assim, os gatos. São da noite. Das ruas. Dos telhados.
Cedo ou tarde o apelo da caça ou do sexo os leva embora.
Bom não ter havido o tempo para a afeição sair da semente.
Que é uma coisa estranha, mesmo, o amor.
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"Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse há mais tempo
Não amava quem amei"
2 comentários:
"O amor é uma coisa estranha", quando vi essa sua frase senti a respiração suspensa...
Os gatos são seres estranhos também, querida. (Por isso o amor por eles)
beijos, bom sempre vir aqui.
Às vezes, viver é muito estranho.
E nós também...
rs
beijo, Sheylinha.
Obrigada pela presença. E pela sugestão do nome.
Adotei.
;)
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