13.7.09

No loteamento do céu

Ainda as notas do samba ecoando na esquina que dobrei, guardei, botei no bolso de trás da calça, com cuidado para não amassar. Braço sobre o ombro de Blaise, fomos caminhando meio trôpegos até chegar à beira do rio, cimo da escadaria cujo primeiro batente varremos com folha de fruta-pão, limpando o resto do cocô dos pombos com nossos jeans puídos.
Ele estava especialmente alegre naquela tarde que se dissipava em minha quietude. Eufórico até. Recitou três ou quatro versos, bebeu cinco ou seis goles, discorreu sobre guerras, amputações, miséria e renascimentos. Blaise era assim mesmo, de uma capacidade inefável de se recompor depois de dilacerado - ou fulminado, como preferia - o que me ensinou um pouco a viver minhas próprias amputações simbólicas.
Perguntou-me, súbito: - Que dizia a música?
Cantarolei, Assis Valente tinindo na memória remota quase intacta: - “minha gente/ era triste, amargurada/inventou a batucada/pra deixar de padecer/salve o prazer, salve o prazer...”

Olhar perdido no afogamento do sol, contei que ali teve vez minha reconciliação com Capeto nos idos de mil novecentos e muito. E que ali fundamos nossa amizade. E que ainda outro dia fiquei triste, tão triste por ele.
Contei que amizade prezo mais que romance. E que mentira me assusta e incomoda. E que não sei de um, um só romance sem mentira.
Sorriu, só, meio-sorriso meia-boca, gravata amarrotada de noites insones, mangas dobradas deixando um braço à mostra.

Quando o sol morreu, voltamos para casa. Ele, com o chapéu cheio de pitangas: as que chorei. Eu, com o embornal cheio de palavras: as que me disse e as que calou.
Despedimo-nos na mesma esquina, que tirei do bolso, desdobrei, recoloquei no lugar.
Mesmo querendo esticar o tempo, havia que voltar, varrer bem varrido o assoalho do juízo, refletir sobre nosso encontro beira-rio, a mentira, a fantasia.
O que ao fim não me deu conclusão alguma, que nem Blaise veio à vila, nem a roda de samba toca Assis Valente, nem todo mundo é filho de Papai Noel.

E a verdade, essa continua morando do outro lado.
Do rio, do espelho.
Talvez em algum barraco da zona norte.
Ou em algum lote, no céu.


9.7.09

Sempre Xico Sá...

E UMA CARTA ABERTA AOS COVARDES NO AMOR ETC

no Carapuceiro

"Amigas, peço a devida licença para me dirigir exclusivamente aos meus semelhantes de sexo, esses moços, pobre moços, neste panfleto testosteronizado e inflamável, CUIDADO FRÁGIL. Sim, amigas, esses seres que andam tão assustados, fracos e medrosos, beirando a covardia amorosa de fato e de direito.
Destemidas fêmeas, caso notem que eles não leram, não estão nem ai para a nossa carta aberta, mostrem aos seus homens, namorados ou pretendentes, mostrem, recortem e colem nas geladeiras deles, larguem a página aberta no banheiro, na mesa do computador, na cabeceira da cama, deixem esta crônica grudada na tv, mas não antes do futebol da quarta, pois há o risco de simplesmente ser ignorada, enfim, me ajudem para que esta minha carta aberta aos rapazes chegue, de alguma forma, ao alcance deles.
Amigos, chega dessa pasmaceira, chega dessa eterna covardia amorosa. Amigos, se vocês soubessem o que elas andam falando por ai. Horrores ao nosso respeito. O pior é que elas estão cobertas de razão como umas Marias Antonietas cobertas de longos e impenetráveis vestidos.
Caros, estamos sendo tachados simplesmente de frouxos, medrosos, ensaios de macho, rascunhos de homens, além de tolos, como quase sempre somos.
Prestem atenção, amigos, faz sentido o que elas dizem. A maioria de nós anda correndo delas diante do menor sinal de vínculo, diante da menor intimidade, logo após a primeira ou segunda manhã de sexo. O que é isso companheiros? Fugir à melhor das lutas?
Nem vou falar na clássica falta de educação do dia seguinte. Ora, mandem nem que seja uma mensagem de texto delicada, seus preguiçosos, seus ordinários. O que custa um telefonema gentil, queiramos ou não dar seqüência à historia?!
Ora, depois daquela intimidade toda! Tudo bem que não mandemos flores, mas um mimo em palavra, nem que seja um lacônico: “Foi ótimo, noite linda!”.
Amigos, estamos errados quando pensamos que elas querem urgentemente nos levar ao altar ou juntar os trapos urgentemente. Nos enganamos. Erramos feio. Em muitas vezes, elas querem apenas o que nós também queremos: uma bela noitada! E, claro, delicadeza.
Por que praticamente exigimos uma segunda chance apenas quando falhamos, quando brochamos, algo demasiadamente humano? Ah, eis o ego do macho, o macho ferido por não ter sido o garanhão que se imagina na cama.
Sim, muitas querem um bom relacionamento, uma história com firmes laços afetivos. Primeiro que esse desejo é legítimo, lindo, está longe de ser um crime, e além do mais pode ser ótimo para todos nós.
Enquanto permanecermos com esse medinho de homem, nesse eterno e repetido “estou confuso” –“eu tô cafuso”, como dizia Didi Mocó!-, a vida passa e perdemos mil oportunidades de viver, no mínimo, bons momentos do gozo e felicidade possível. Afinal de contas para que estamos sobre a terra, apenas para morrer de trabalhar e enfartar com a final do campeonato?
Amigos, mulher não é para ser temida, é para nos dar o melhor da existência, para completar-nos, nada melhor do que a lição franciscana do “é dando que se recebe”, como cai bem nessa hora. Amigos, até sexo pra valer, aquele de arrepiar, só vem com a intimidade, os segredos da alcova, o desejo forte que impede até o ato que mais odiamos, a velha brochada da qual tratamos aí acima.
Caros, esqueçamos até mesmo o temor de decepcioná-las, no caso dos exemplares mais generosos do nosso clube. Não há decepção maior no mundo do que a nossa covardia em fugir do que poderia representar os bons momentos da felicidade possível, repito, não a felicidade utópica, que é bem polêmica, mas a felicidade que escapa covardemente entre nossos dedos sujos de caneta Bic a toda hora. Acordemos, para Jesus, amigos homens, levanta-te e anda condenado!
Rapazes, o amor acaba, o amor acaba em qualquer esquina, de qualquer estação, depois do teatro, a qualquer momento, como dizia Paulo Mendes Campos, mas ter medo de enfrentá-lo é ir desta para a outra mascando o jiló do desprazer e da falta de apetite na vida. Falta de vergonha na cara e de se permitir ser chamado de homem para valer e de verdade".


(Xico Sá)

6.7.09

Pesadelo

Era um alarido infeliz, uma zoada tão cachorra da moléstia, mais parecendo todos os diabos do mundo reunidos pra acordar pedra e madeira. Todos juntos numa caixa, troando.

Insistiu até conseguir, dormir, e sonhou. Sonhou nas profundas, em visita, na entrada do portão, tête-à-tête com Cérbero que lhe deu passagem sem rosnar ou ranger de dentes.

Não sabe quanto tempo vagou por lá, meio aos uivos e gemidos, entre os galhos retorcidos, no frio, na escuridão.
Não sabe quantas almas viu, quantos conhecidos, amigos, inimigos, colegas, parceiros.
Não sabe se teve medo ou solidão.
Então pensou nele, tão alto, tão alto, chamado, pedido, apelo.
Então pronunciou seu nome. Três vezes. Meio às sombras.
Então esperou.
E esperou.
E esperou.
E esperou a vida inteira, desde sempre, até o fim de sua longa noite.
Até a luz da manhã ferir-lhe os olhos.
Até se instalar o nunca mais.


1.7.09

Chuvas




Era uma tarde escura, alma minha,

escura dentro em mim.

Transbordavas em nuvens, frio, fuga

rio imenso, mangue-solidão

Eu, mirava, atônito, o cão sem plumas

apoderar-se de ti

Somei gravetos à represa onde encalhavas

Pranto de água e sal, lamento de afogados,

Distante léguas de mim.


Era uma tarde escura, alma minha,

mergulhavas nos vórtices do medo

onde quase te perdi


Eram apenas nuvens, alma minha

e o sol entrando na casa pequenina

me acercou de ti.


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Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

(O cão sem plumas; João Cabral de Melo Neto)

Foto
da porta de casa,
por Moisés de Lima,
numa segunda-feira chuvosa de junho.

30.6.09

Habilidade




Usei a habilidade dos dedos para não prendê-los na armadilha montada para o rato, e ele nem olha para ela - espalha migalhas de biscoito champagne marca-própria no chão da cozinha, ignora o parmesão de 60 contos o quilo na ratoeira, apura os bigodões e focinho farejando o passado dos passos do gato retirante que partiu para sempre fugindo da prolongada seca do pires, me olha de soslaio e eu, não encontrando a vassoura pra enxotá-lo, dou de ombros e me levanto e trago a vasilha e recolho o ranço do cajueiro bichado e as lágrimas do salgueiro-chorão pisando desavisada no rabo do preá que mora debaixo dele e me xinga de tudo que é nome feio, impropério, palavrões de cabeleiras inimagináveis e vai embora montado no cavalo-do-cão já encilhado e a postos pra viagem sem volta me fazendo perguntar que fenômeno fez sumirem todos os moradores do lugar, abandonando dom ratão à própria sorte e aos meus humores. Raspo o tronco do juazeiro, falta dentrifício na sala de banho e os sorrisos devem ser sempre luzidios, recomenda o ministério da saúde, disperso a nuvem de poeira que embota a mente do senhorio e o supõe super, por isso berra, agoniado, o coitado, safenado, corneado, desiludido e se não bastasse, militar reformado, e penso que vai enfartar de novo, que desconheço o número pra chamar a Samu, mas só quer ordem e disciplina na caserna e se cala e se aquieta e um dia ainda me mudo, juro, pro meio do mato, sem ladrão, sem vizinho ou senhorio, mas não agora, que ainda preciso de megapixels e lá não tem, então tiro as sandálias e piso o cascalho e ativo pontos energéticos nas solas dos pés, que é preciso energia, que o dia amanhece, que o pão integral cheira no forno e dom continua à espreita ignorando a isca, e não quero mesmo machucá-lo, então fico feliz, mas começa a faltar fermento biológico, que não uso o químico, e falta arame para a cerca e a cancela e não quero mais desalambrar que la tierra no es nuestra y tuya y de aquel nem o barbudo fez a reforma agrária, e o rádio já toca que o milho ondeia pra ser colhido e a pitangueira já deu flor e ainda há cestos a trançar e falta o cipó, por isso deixo a casa e vou ao mercado, que não quero mais tédio, nem ranço, nem caju, nada além do que falta, e ainda um baralho para a paciência.
Que o mais resolve a habilidade dos dedos.

28.6.09

funcionalismo, transporte, vida acadêmica



A voz eletrônica do leitor magnético do coletivo anuncia, fitando a tarja preta do cartão de transporte: - pra cidade! e eu fico achando que peguei, não o bonde, que não circula nas ruas do lugar, mas o ônibus errado, e não é nada disso, é só pra determinar ao freguês onde tomar assento - não confundir com outra expressão - perguntando, em verdade: - qual tua idade?, já que maior de sessenta viaja na dianteira. Também não é isso, e já que na vida nem tudo é passageiro, há também o cobrador, que acode, desfazendo o engano, pois que a voz ininteligível diz mesmo é: - gratuidade!, e com o privilégio do trajeto franco, também na dianteira mas de pé, pois fora da faixa etária, me conformo e me seguro e dependuro pra não cair, a cada curva da estrada, que não é de santos, pelo contrário, só pode ser obra do demo - que não veio mas mandou o motorista como secretário -, até descer uma alma caridosa em cujo assento disponho meus cinqüenta e tantos quilos, recém conquistados à custa de muito pão-macarrão-feijão-procissão, quase romaria, todo dia, percorrendo centos metros, indo e vindo sem parar, cá e lá, fora a experiência como sardinha durante o trajeto da linha verde e azul cujo nome não decorei e que da primeira vez me deixou no canto mais esquisito da galáxia, mas sobrevivi e recordando o episódio respiro só com meio alívio, que já chegou o ponto de descer, sair correndo do eterno medo de atravessar ruas, de caminhões, de condutores endiabrados, alcançar o sossego da calçada, sentar no primeiro banco de praça, esbaforida, pensar no sacrifício no esforço no martírio no suplício, no exagero dos dois últimos termos, e que vai valer a pena ter sobrevivido e toda essa narrativa vã se um dia terminar de escrever um tratado e mudar de emprego e pagar a pena de não mais ouvir a repetição na catraca no pé-da-orelha: gratuidade!

27.6.09

Direito ao blefe



Inútil tentar se fazer entender quando a letra dá a impressão de ser o que não é e de haver quando não há. Quem escreve por precisar - pela práxis, não pelo pão - vez discorre sobre tudo, sobre nada, sobre alguém ou ninguém em particular. E há diversão nesse escrever, há transgressão nesse escrever, há inversão nesse escrever. Que é libertário. Basta tentar. Eis que às vezes na escrita se esbarra em olhos sedentos de saber, de supor, de adivinhar. Sede que move o quintal, a cozinha, a sala de jantar, a camarinha; desejo incontrolável de desvendar, de concluir, de descobrir, de anunciar, de acertar. E desemboca no errar. Desejo em voga, que move o mundo moderno como se cada vitrine, varanda, janela, fosse algo mais que impressão, fosse algo mais que olhar, fosse um reality show particular.

Grande irmão, você que tudo vê, que tudo perscruta, encontra, fareja, aonde é que o secreto o indevassável o oculto atrás das brincadeiras com sopas de letrinhas foi parar?
Onde o direito ao devaneio, ao desvario, às mentirinhas, no real de quem os quer inventar?

Pois manifesto: vivam os dragões e as bruxas e as fadas e a fênix e os grifos e as sereias e os tritões e as mulas-sem-cabeça e o bicho-do-côco e o boitatá! Pelos direitos dos personagens, de mentir, driblar, blefar, enganar, trapacear! Vida longa aos símbolos e aos que escolhem deles se utilizar!
Que se assim não for, que graça terá?

23.6.09

happy birthday, dear Xyco

ou

hermano dame tu mano

ou

jacas ou carambolas, que diferença faz?

ou

para Márcio
no seu aniversário
:




Voilà!


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Mensagem




Não, o carteiro não chegou nem seu nome gritou, do portão. No entanto, escreveu, finalmente, a carta. Já não conseguia escrever há algum tempo, o corpo que habitava, inerte, quase, não fossem os tremores nas mãos.
Procurou os óculos sem aflição. Releu:

"Mesma cadeira, a mesa, a mesma. Mesma pimenta no prato, e não é refresco, no copo rubro de agora. Uma taça, aliás. É outro o dia, outra a companhia de olhos postos sobre a toalha xadrez, verde, vermelha. Outra cena e algum torpor se espalhando pelas extremidades, o suficiente para me dar a calma que preciso para lhe contar de quantas perguntas ainda tinha a fazer. E calei.
Hoje é outro o momento, e eu repito que nada mais volta como era. E você refaz um caminho com outro andar, seguindo a indicação do gato zombeteiro, mordiscando, cá e lá, pedaços de chapéu-de-sol, encolhendo, esticando, cabendo, sobrando.
Penso agora em parar de morrer, senão vou acabar fumando. Não, o que eu queria mesmo dizer era que talvez precise morrer, senão vou acabar parando de fumar. Não sei, estou confusa, mas você entendeu, acho.
Não sei quando comecei a odiar os pombos, essas criaturinhas divinas e insuportáveis que me remetem sempre ao cinza, ao frio, à solidão, à rapinagem oculta nos seus doces arrulhos. Mas eles vêm, destemidos, e dou a eles migalhas do meu pão dormido, então na verdade não deve ser ódio. Talvez ao que representam(?).
Um momento particularmente delicado, por razões que não lhe interessam agora, sem a reprise do acometimento.
Eu uso deliberadamente suas palavras e tenho certeza que você as reconhece quando as vê, arguto que é.
Ainda sobre aquele momento, desfaço o suspense: não havia nada. Era só a vida, o descaminho. A dor do mundo, a dor dos outros. Passou há muito. E chegou de novo e se foi.
Não ria, não, mas eu juro que é o inverno que faz coisas assim. Precisei falar com você sobre isso tudo que é tão tolo e por todo esse tempo. Tive a impressão idiota que só você compreenderia. Mas eu não sabia dizer. Quis escrever. Mas minhas mãos estavam frias. Quis pensar. Pensei melhor e decidi jogar cartas e cometer assassinatos de preciosos segundos, minutos, horas, dias. Quando tudo acabou, escrevi esta carta que você está lendo neste exato momento de nossa inexata vida.
Vou em férias para a terra do sol. Porque descobri que não há ninguém. Absolutamente. Nós somos a nossa própria terra do sol. E dispomos sobre o seu-nosso solo, nuvens e temporais. Essa a nossa expiação. Inferno. E maravilha.
Não preciso mais implodir as tomadas. Venci o vinho.
Não lhe mando um beijo. Antes um abraço, apertado, de corações perto, sem aqueles seus tapinhas de consolação, nas costas, que um dia detestei com todas as forças do meu ser.
Não lhe pergunto nada mais. Nem mais lhe digo até a chegada da primavera.
Mergulho na biblioteca, vou ter coragem para apedrejar os pombos, para assustar os pombos, para espantar os pombos. Uma dessas alternativas, pode apostar.
Colha flores. Desembainhe espadas. Faça amor. Faça guerra.
Santé!"

A chuva parou ao fim da leitura, Vanuza cantando no rádio enorme, quarentão enxuto, estrela da sala-de-estar: "e assim pensando rasguei sua carta e queimei para não sofrer mais".
Sai dessa, Vanuza! - pensou, olhando a carta que não foi mandada sobre a mesa. E sorriu.

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"Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar..."
(Vinícius de Moraes, O dia da Criação)

19.6.09

Você merece