26.7.09

O nó




Hoje não matei ninguém.
Saí de casa morrendo de tédio, graça nenhuma nem no sol pintando a rua de laranja-amarronzado-côr-de-infância, nem nos pardais, galos-de-campina, nem no campanário da igreja velha.
Parei no empório, na perfumaria, tomei café, comprei dois vidros grandes de loção pensando cítrico, pensando amadeirado, nada frutado, nada floral, nada doce, nada doloroso para as têmporas combalidas. Não, não comprei. Escolhi mas não paguei, portanto, não levei, as poucas notas espremidas umas contra as outras dentro da carteira de couro lustroso, preto, preta, esquecida sobre a cama, em casa, o constrangimento pelo olhar “logoviqueeralisa” - gentil retribuição da moça do caixa ao meu sorriso desbotado, desconfiado, envergonhado.
Fui andando, sem saber pra onde. Puxei do bolso, pela corrente, a bússola: agulha quebrada. Fui andando, então, sem Norte, sensação esquizóide, ao redor tudo ausente, distante, surreal. Fui andando me sentindo invisível, levitação da véspera de álcoois. Fui andando pra lugar nenhum, me sentindo um cão procurando pelas ruas um dono que já morreu, me sentindo um expatriado. Um apátrida - diria melhor.
Então fiquei triste, assim, de repente, e já não queria mais chegar.
E já me arrependia de ter deixado para trás o tédio, de memória o poema, a lembrança antiga guardada no livro de leitura perdido atrás dos passos.
Segui assim por mais de hora, ou foram minutos, já nem sei. Segui sem cobres, sem identidade, numa solidão maior que o corpo, achando estranho, um tempo estranho esse, de hoje, de tanta busca rasa, de tantas solidões.
Percebi que algo doía e instintivamente olhei para as mãos, lembrando do pesadelo da semana passada, quando sangravam, sangravam sem parar, e eu não entendia como de tão pequenos sulcos, feito fossem de unhas rasgando as palmas – e no entanto foram cacos de vidro –, escorria tanto sangue. Assim, o sangue escorrendo, sem nada ou ninguém para estancá-lo, havia cruzado a porta de saída, atravessado a noite, amanhecido. Fazia uma semana, e eu estava então dormindo.
Agora não, nem eram elas que doíam. Era o que eu não conseguia apalpar ou enxergar ou localizar.
Era um nó dentro de alguma víscera ou parte outra, aflorando depois do tédio, da tarde, do estranhamento, da memória, do sonho, da tristeza, no anoitecer.
Continuei andando, luzes desfilando sobre nossas cabeças, calçamentos deslizando sob nossos pés, os meus e de todos os outros, meus ímpares, meus iguais, da rua, das lojas, da calçada, do mundo, os que eu não conhecia, que não me viram, que eu nunca vi.
Luzes perdendo o foco, lâmpadas borradas, gotas de sal e rímel marcando o chão, João e Maria contemporâneos eternamente perdidos na selva urbana, os pardais bebendo as pistas.
Luzes se acendendo além do batente de entrada, da porta, onde um retângulo grande, branco, macio, onde um retângulo pequeno, branco, macio.
Onde agora repouso a cabeça e assopro o nó, a ver se o desato.
Isso porque fui só ali ver se estava na esquina. E me ocorreu que ontem, que nunca, que hoje, que jamais matei verdadeiramente ninguém.

---------------------------------------------------------------------------------------
---------------------------------------------------------------------------------------

"Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro
"

(Lembrança de morrer; Álvares de Azevedo)

2 comentários:

Clarissa disse...

li só este, tvz por afinidade de sentimentos. mas voltarei para ler mais. gostei daqui! parabéns!

MgP disse...

Obrigada. Bem vinda e volte sempre. A 'casa' é de quem nela se sentir bem.