27.4.09

Estações




Entre as paredes de silêncio, mofo, lesmas, chuva. E o sopro da vertigem. E a imagem. E o medo.
No recinto, nada. A parede é branca, a parede é fria, a parede é amarela, a parede ignora, a parede não responde.
As paredes têm ouvidos, de mercador. As paredes têm línguas que ferem o mármore, lápide dos vivos.
Das paredes brotam garras que arranham os espelhos onde escrevem a elegia dos mortos.

Fora, os pingos nas pedras do chão. As gotas de lua nova encharcando a escuridão dos morcegos, as veredas do louva-a-Deus, a clareira onde pousa, verde, quieto, mãos postas, gravetos em oração.

Onde moro fica assim quando inverna em mim.

E é só uma pequena casa entre outras pequenas casas.
E é só um tempo e um lugar, perdidos, em idas e vindas sem fim.

E é templo.
E é abrigo.
E é palácio, do ouro da luz e da canção.
Sem torres, sem fossos, sem gaiolas, sem rouxinóis.

E é jardim. Horta. Pomar.
Então planto sonhos na soleira da porta, no meio das açucenas, debaixo do cajueiro-bravo, na sacada, entre samambaias.

Então planto sonhos nos rosais, com as pontas dos dez dedos verdes, como na Miraflores de Maurice Druon.

Então planto sonhos na cumeeira, no terraço, no oitão.

Para que nasçam nuvens.
Para que brotem estrelas.

Para que primavere em mim.

15.4.09

cama-de-gato, pau-de-sebo




Cama de gato - jogue o jogo desenhando figuras sem prender os dedos. Muda o movimento, muda o desenho. Duas, quatro mãos, um novo desenho.
Cama de gato - trance os fios, dedos ágeis, hábeis, velozes, tecendo a teia onde vão se enredando dúvidas e certezas, luz e trevas.

E quem não quer se enredar faz credo em cruz, esconjura, bate três vezes na madeira (três, Mariahilma contou, ensinou, revelou, é quanto se repete uma coisa pra que vire decreto).

Bate na madeira, pois, de virola, isolante termo-elétrico. E no entanto, condutora de calores e de choques, quando madeira de leito, tábua dos sacrifícios, mesa de banquete.

Na cama, a receita é simples: pra abafar o cheiro forte da virola, três demãos de verniz, uma dose de disposição, um bom motivo. Encobrem, além do móvel, as intenções e o diabo a quatro. As más e as boas e muitas, das de encher toda a extensão do vasto inferno.

Da virola se faz também o pau-de-sebo, um pau escorregador onde em cima tem dinheiro pro primeiro ‘achegador’.
Quem não brincou e não viu, não viveu. Velhos tempos, belos dias. Há, pois, um ‘mói’ de gente que desconhece o suplício do escorregamento do esforço vão da queda da platéia se rindo aplaudindo pedindo bis e só desejando ser feliz.

Se eu fosse criança voltava a brincar com os dedos.
Se eu fosse adulta trabalhava em marcenaria.
Se eu fosse sábia, não brincava de cama de gato, nem de pau de sebo, nem ia querer saber de todas as utilizações da virola, de todos os desenhos dos cordões.
Se.

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mas não me queixo dessa sorte, eu sou um comodista
E ainda me chamam por aí de verdadeiro artista
e a platéia ainda aplaude, ainda pede bis...


(Pois é, seu Zé; Gonzaguinha)

7.4.09

Sonho de fim de verão




Estávamos na praia, eu e ela, ela e eu. Ela contava então oito, nove anos. E no entanto era hoje.
Ela corria com outras crianças. Na direção contrária.
Eu advertia: não tem mais ninguém lá. Todos estão voltando à casa. A maré está enchendo.
Sentamos no batente. Perguntei: gostavas de mim?
Disse, distante: gosto. Gostava.
Lembras que eu cozinhava para ti?
Lembrava. Desfilou as comidas que eu fazia. E eu já nem lembrava mais.
Entramos na casa. Assistimos o recital. O monólogo. A mulher, lábios grossos, encenava, nas mãos uma criança de colo. Um menino. Moreno. Sujo de barro. De se arrastar pelo chão. Ela lhe ensinava a vida como era.
Amarrou uma de suas mãos a um caibro, a direita. Amarrou um de seus pés a outro, o esquerdo. Ele se debatia, pendendo, sem chorar. Havia carinho no gesto, iniciático. Assim lhe ensinava a mobilidade sem a liberdade. Dizia-lhe coisas, muitas coisas, sobre a espera, as batalhas, a força, o amor.
Ele contracenava. Assistíamos.
Acordei.
Hoje ela se perdeu de mim. Eu me perdi dela. E a amo. Ela, não sei mais. O que esconde atrás da raiva nos seus grandes olhos azuis? Em que gaveta trancou as nossas noites, nossos contos, nossas tardes à beira-mar, nossos jogos de pedrinhas, as roupas de boneca, os bolinhos de chuva?
Em que curva, esquina, encruzilhada, nos dissemos adeus? Em que navio, ônibus, avião, partiu pra não mais voltar?
Em que tempo trará de volta a ternura nos seus grandes olhos azuis?

Os sonhos não trouxeram as respostas.



Clareia manhã, clareia
Abre os teus dedos manhã
E deixa essa casa cheia
Do teu cheiro de romã


(Aurora, Ednardo/Belchior)

5.4.09

O TGV

- Quer um TGV?
Foi ele quem perguntou, óculos rayban, lentes espelhadas, lenço amarrado na cabeça à la ‘que é que a baiana tem?’.
Parecia um desenho. Parecia saído de um filme infantil, de uma história em quadrinhos, esqualidus, ismilingüido, professor Girassol.

Não seria má idéia - pensei. Deixar a plataforma, embarcar no Trem de Grande Velocidade, paisagem difusa voando na janela, 200, 250, 300 km por hora, veloz e furiosa, veloz e apaziguada, veloz e distante, veloz e ausente, veloz. Pela módica quantia de 25 pilas, preço para estudante, cruzar tantas cidades sem vê-las. Sabê-las lá. Fora do trem, dos vidros das janelas, da ordem de visitação, fora. De mim. Do interior à capital. Em alguns piscares de luzes e olhos.

- Quer um TGV? - repetiu.
Pensei: - pra que tanta pressa, doutor?
Responderia, talvez: - quem é coxo parte cedo, ‘dona’.
Ou ‘tia’. Ou ‘madame’. Ou ‘senhorita’. Ou ‘moça’. Ia depender dos filtros ativos nas lentes espelhadas. Da boa vontade. Da hora da festa. Do humor. Da clientela presente no local. Do quadro comparativo. Dependeria.
Que cada filtro depende do momento.
Como nas relações.

(Houve um homem com quem dormia.
Certa vez afirmou: - ajoelho-me aos pés da minha rainha.
Houve um homem com quem dormia.
Certa vez me confessou: - eles têm medo da sua cara feia.
Eram dois momentos.
Era o mesmo homem - riacho e dialética à parte.)

Eu devia uma resposta ao rapaz de lenço, voltando ao TGV.
A pergunta, por sua vez, era também uma resposta. A uma provocação.
Disse: - sim, quero. Obrigada.
Por querer.

Também ele era veloz. De tanto lidar com TGVs.
Era o garçom do bar, a quem perguntara, eu: - nada aqui que embriague?

O TGV, uma bomba: tequila, gim, vodka. Num copo só. Demorei, no entanto, a responder.
Ele, desconsolado, se desculpando, quase, por trás das lentes: - a tequila acabou.
- Tem absinto?
- Absinto muito. Também não.

Gosto do balcão, ninguém aporrinha. E sempre dá pra beber algo misturando umas gotas de elixir de invisibilidade. O meu algo tinha dentro folhas de hortelã. E a título de consolação - na falta do T - o G e o V.

Sumiram num trago, GV, balcão, garçom.
E porque perdi a hora, o trem, a viagem, quedei-me na plataforma mesmo, silente, rodopiante. Paradoxalmente, efusiva, taciturna. Invisível.

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Pegar o trem para o passado. E voltar bem mais feliz...
(De Chicago a São Luís – Moisés de Lima/Graco Medeiros)

1.4.09

Temporão






Passa da meia noite e você prega.
Ninguém perto.

Para quem?

Gemidos, sussurros, gritos - que seja - reverberam no deserto.
Só sons morrendo nas rochas:
surdas, imóveis, silenciosas.

Sons, sós.

Como eu.
E você.

Passa da madrugada, você me pede água.

Só uma fonte que secou, e lhe mata de sede.

Uma história de infância, distante: - "não parta a melancia longe dessa fonte.
Que a princesa, dela nascerá: bela, sedenta. Sem água, resseca. Vira pó em um instante".

Passa do meio-dia.
Seu corpo queima no sol escaldante.

As rugas lembram que hoje não é antes.

A via cobra pedágio.

A vida, tributo.

Existir em liberdade – quem dera?
Voltamos às correntes, às masmorras
Aos grilhões, às galés.

(Verto em rimas pobres tudo o que me assombra. Nada nobre, pouco cobre. Nada de poesia, nem de prosa. Arremedo, escombro, sobra. Talvez sobrem muitas sombras.)

Passa da hora do Àngelus.
Esperam por nós e o que não seremos, tutti bambini:

- os que não fomos;

- os que não fizemos.

Passa da hora de fazer silêncio.
O toque de recolher ecoa aqui por dentro.
Recuso-me o discurso do abstêmio.

Meu peito: incêndio.
Minha paz: o vento.

Lembro, penso, sinto, sento.

Escrevo.

Agradeço.

Regozijo-me.

Tudo dói.

Arrebento.

Resisto.
Renasço.
Entorpeço-me.

Se serve de consolo: não durmo ao relento.

Na verdade, passa da hora, muito.

E nada sinto:

invento.

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"Agora, já passa da hora
tá lindo lá fora
larga a minha mão
solta as unhas do meu coração
que ele tá apressado
e desanda a bater desvairado
quando entra o verão
"

(De todas as maneiras, Chico B. H.)

"Campineiro do meu pai
não me cortes os cabelos
minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira que o pássaro bicou
"

(Tradição oral, autor desconhecido)