
Cortei as mãos ao recolher os cacos de vidro espalhados pelo chão da cozinha. Atirei uma pedra grande de granito no ratão que tentava se esconder atrás do arbusto, e ele não morreu-reu-reu.
Nem fui à polícia e saiu em disparada, capengando, como podia, até sumir de vista. Reprovaram meu ato selvagem - atentado contra a mais ínfima vida gera reclamações e pregações ali, entre eles.
Não dei ouvidos às lições alheias, só à própria maldade, mas o ratão foi no outro sonho, antes do das mãos cortadas e do mutante que rondava a casa até que a filha apavorada corresse a aferrolhar o portão advertindo que ele era mau. Muito mau.
Velouté sentiu o drama e miou miou miou no pé da porta para que a abrisse, e veio em minha guarda e deitou no sofá, sob a rede, e velou meu sono e os sonhos ruins não vieram mais, nem mesmo debaixo do calor e da sinfonia de mosquitos.
Linda loira me receitou um filme de um rato cozinheiro e assim entrei pela madrugada, cozinheira infante, desenhos coloridos, molhos e sopas, ruas e esgotos de Paris.
Ao amanhecer, saí a aguar as mudas nos vasos, que continuaram sem dar um pio, sequer para agradecer - à exceção do pau-d’arco que agitou suas oito novas folhas em saudação preguiçosa.
Aproveitando o que imaginei ser disposição dele pra entabular conversa, disparei:
_ Que seria das noites intermináveis sem a perspectiva da manhã?
Nada, nada me disse.
E mais não lhe foi perguntado.
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imagem daqui