
Ontem trouxe o barco para casa. O leme quebrado tinha conserto, o mastro horizontal, não.
Ainda assim, o vento enfunou as velas e partimos, em pensamento, risco grande de soçobrar.
Havia um rato morto no tanque, já duro, sobre o saco de estopa que um dia guardou livros. Pus ambos no lixo e se foram.
Sonhei a vida inteira com o barco. Ele chegou, enfim. Quebrado. Ainda assim, bonito de ver. Imponente, sobre a prateleira mais alta, augúrio de viagem, outros mares.
Os ratos abandonam o navio.
O capitão naufraga com ele.
O rato está morto.
O barco, quebrado.
No peito, um peso e uma dor.
Nas costas, uma dor.
No coração, uma dor.
Nos olhos, uma estrela.
E um pesar.
Pelo veleiro.
Pelo rato.
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"Não precisa ir muito além dessa estrada
Os ratos não sabem morrer na calçada
É hora de você achar o trem
E não sentir pavor
Dos ratos soltos na casa
Sua casa."
(Lô Borges, Trem de doido)